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Gutavo Scatena/ Imagem Paulista | |
Alice
Brill, em seu atelier de São Paulo, clicada por Gustavo Scatena em 2005 |
A obra de Alice Brill está situada no momento de transição da arte figurativa para a abstração. Os movimentos sociais representados por Di Cavalcanti e Portinari estavam se arrefecendo e dando lugar aos experimentos guestálticos de Aldo Bonadei. As formas ainda são a estrutura compositiva, com linhas intensas e escuras sobre as quais se esparramam as cores e o lirismo de manchas. Porém a expressão gestual, intensa e consciente, percorre o campo pictórico muitas vezes denso. O dilema dos artistas dos anos que aclamam o concretismo após a Bienal Internacional de São Paulo, era abandonar a figuração ou equalizar sensibilidade e racionalismo.
Alice Brill, mais afeita à tradição alemã expressionista, passa por esta atribulação modista carregando as cores fauves e a curiosidade da alma nórdica na busca de gestos e técnicas ancestrais. O batik, por vezes relegado ao kitsch, ganha com Alice um status expressivo de teor acadêmico. Passa de um experimentalismo exótico a uma linguagem combinativa de ismos do início da modernidade européia. Se o grupo Die Brücke buscou na gravura de sabor primitivo as linhas intensas e cores fortes, Alice vai em busca das linhas que por vezes isolam o diálogo colorístico - mas por um caminho técnico inverso da gravura. Ao isolar áreas com a parafina e posteriormente integrá-las de maneira compositiva, a artista parte da claridade para uma ocasionalidade quase incontrolável que se dará com a dissolução das tintas aplicadas.
É neste momento que a parte técnica é suplantada, e ganha vôo a imaginação. Na paisagem urbana segura a composição à maneira de Cèzanne; dribla a perspectiva renascentista com blocos compositivos em gradientes. Na natureza aproxima-se dos ritmos naturais de Franz Marc - e, se seu olhar doce recai sobre a figura humana, colore-a com piedade e ternura.
Na realidade expressa por Alice há várias maneiras de olhar - profunda e emocionante quando capta a alma humana pelas lentes fotográficas. Este filtro não lhe permite cores pois, como os expressionistas, faz radiografias. Na pintura é mais generosa e se permite um colorido lírico kandinskyano. Se o olhar recai sobre a metrópole, a partir do bairro do Sumaré, de onde espreitou o mar de prédios afogando o horizonte, sempre encontra brechas na busca da luz - mesmo estando a arquitetura aprisionada nas linhas prévias do ensaio compositivo. Se no campo, em sua fazenda em Itu, a natureza se agiganta, retorce-se em todo espaço e se impõe como criação indomável. Os galhos ou troncos nus chegam a amedrontar. Uma seiva clama nestas formas que não se deixam abraçar, ao contrário, saltam sobre nossas emoções invertendo o diálogo do humano com o natural.
A percepção de Alice vai além de seus olhos cristalinos e cerúleos. Transforma o suporte papel ou mesmo o tecido em matéria resistente às suas idéias. Tanto assim que nos anos 70 impõe sua metodologia ao crivo acadêmico, surpreendendo os modismos da modernidade. Sem dúvida sua obra se baseia na prática artística longe das rotulações comuns. É livre nas formas e na busca dos temas. Vão desde o casario, em desuso, mas caro ao instinto feminino e tão impregnado no ser humano na busca do ideário da proteção, até que o olhar recaia sobre seu sonho realizado da criação de área de proteção ambiental - plena de cores, luzes e formas que abraçam sua mente nestes seus anos tão avançados.
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Percival Tirapeli, crítico de arte, professor livre-docente no Instituto
de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), autor de livros sobre arte
e membro da Associação
Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), escreveu este artigo para a mostra
"Alice Brill - Batik e outras Artes"