Deu no jornal Cruzeiro do Sul em 30 de maio, antes de qualquer
veículo de comunicação ituano. A Secretaria Estadual de Saúde
planeja reformular a estrutura do hospital Francisco Ribeiro Arantes, hospital-colônia
de Pirapitingui. Além de mudar o próprio hospital, está prevista
a redivisão do seu território, de 264 hectares.
Fundado há exatos 71 anos, em junho de 1933, este hospital foi criado para
abrigar os hansenianos, num tempo em que a doença não tinha cura
e o doente vivia isolado da sociedade, inclusive para afastá-lo da convivência
em sociedade, devido ao preconceito contra a lepra.Muitas vezes, famílias
não aceitavam de volta quem sarasse. O local, que recebia hansenianos de
todo país, chegou a ter 6 mil moradores.
Hoje, a estrutura ainda lembra uma pequena cidade, destas com igreja, ruas com
obstáculos redutores de velocidade de veículos, necrotério
e cemitério.De trezentas casas, 275 estão ocupadas. A estimativa,
segundo o Cruzeiro do Sul, é de cerca de 600 pessoas vivendo nelas, entre
ex-doentes e seus familiares. Em algumas, há mais de um ex-doente, como
casais que se conheceram em Pirapitingui. O direito a viverem no local, atualmente
já não isolados da sociedade, é garantido por lei há
mais de 30 anos. Outras 150 pessoas, aproximadamente, permanecem na área
asilar e na enfermaria. Em parte, são homens e mulheres com 60 a 100 anos,
saúde debilitada, já sem vínculo com suas famílias.
Para o Cruzeiro do Sul, o diretor do hospital, Márcio da Cruz Leite, informou
que as mudanças devem ser implementadas até 2006. Da área
total, só 17 e 20 hectares permaneceriam reservados ao hospital, contendo
a administração (na antiga Psiquiatria 2, reformada), enfermaria
e área asilar. Outros 50 a 60 hectares se destinariam à parte comunitária,
com as casas onde vivem ex-doentes e suas famílias, igreja e áreas
de passeio. Para completar, cerca de 28 hectares - um trecho arborizado e plano
-, seriam transformados em parque municipal, aberto à comunidade.
Estaria prevista, ainda, um novo prédio para abrigar o Centro de Desenvolvimento
de Deficientes Mentais, a ser transferido para o centro de Itu, A área
restante, mais de 100 hectares, seria disponibilizada para outras finalidades,
como a construção de casas populares. A reportagem de Evenize Batista
informa que a decisão atenderia as necessidades atuais. Alguns dos motivos
alegados: 1- nenhum novo doente foi internado nos últimos anos; 2- o Ministério
da Saúde lançou um programa para hanseníase que, além
de prever a divulgação sobre a doença, propõe adequar
os hospitais-colônia ainda em funcionamento no país; 3- o hospital
de Pirapitingui seria o último para atender hansenianos em território
paulista.
A jornalista retrata um conflito em torno da titulação das terras.
Segundo o diretor do hospital, elas pertenceriam ao Estado, mas há questionamentos
quanto à participação, ou não, da Caixa Beneficente
do Hospital, principal entidade representativa dos pacientes. Declaração
de Josuel Augusto Alves, presidente da Associação Permanente de
Resgate à Cidadania dos Hansenianos, no jornal: "Isso é responsabilidade
do Estado, que deixou essas terras ficarem embaraçadas, houve invasões,
loteamentos pelo governo municipal e estadual, e o que sobrou querem barganhar
com a gente, depois de toda uma vida de privação".
Mas há outra questão, não levantada na reportagem. O plano,
como descrito, é fora da lei e pode contribuir para uma perda ainda maior
da qualidade de vida dos ituanos. Os loteamentos Cidade Nova e Portal do Éden
foram aprovados pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente com a condição
de que lá não se criassem novos loteamentos, sem provar e aprovar
a viabilidade sócio-ambiental do empreendimento, em estudo de impacto ambiental.
Se o distrito de Pirapitingui cresceu, até meados dos anos 1980, praticamente
em função do hospital, hoje, ele vive a conseqüência da implantação
destes bairros populares. Lá vivem mais de 40 mil pessoas, em grande parte
provenientes de outras regiões, atraídas pela possibilidade de um
teto. Teto é importante, mas sem emprego, cria-se uma situação
social instável, onde todos se perdem. Foi o que ocorreu. Veja-se, por
exemplo, o aumento da violência, inclusive na área rural...
Outro problema, de solução ainda mais difícil, é a
falta d'água. Se hoje ela acontece em períodos mais secos, o que
acontecerá com ainda mais moradores em Pirapitingui? Para lembrar: as casas
dos bairros populares no distrito foram prometidas e entregues em períodos
pré-eleitorais. Veremos a mesma história novamente? É preciso
reagir agora, para evitar mais problemas no futuro .

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