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MITOS DA RECICLAGEM(Publicado no URTIGA 162 - maio/junho2004- pags. centrais) |
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MITO DO ISOPOR: ELE É RECICLÁVEL? ENTENDENDO - HISTÓRIA DO ISOPOR TESTANDO OUTROS USOS E SUBSTITUTIVOS DO ISOPOR.... DICA: SEPARAR OU NÃO POR TIPO DE RECICLÁVEL AIPA RECICLA - O QUE É, QUANTO RECOLHEU
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| MITO DOS LACRES
As chances são grandes, de você conhecer alguém que coleciona (ou colecionou) lacres de latinhas de refrigerante ou cerveja, pensando que renderiam um bom dinheiro. Ou então, planejando repassá-los para uma instituição de caridade, visando doação de cadeiras de rodas. São pessoas, relata Patrícia Mousinho, da Recicloteca (um centro de informações sobre reciclagem da ONG Marapendi, no Rio de Janeiro) que acreditaram que uma garrafa pet grande, cheia destas pequenas argolas metálicas (cerca de 1 kg) renderia mais de R$ 200. Eles não encontram freguesia, diz ela, pois se trata de uma lenda urbana. É o que detalha José Roberto Giosa, diretor de meio ambiente da Associação Brasileira de Alumínio (Abal), entidade que lançou uma campanha, em 2003, para esclarecer o público quanto a este mito da reciclagem. Segundo Giosa, quando separado da latinha, o lacre até perde valor para reciclagem. Por ser diminuto, fica mais fácil perde-lo durante o transporte e peneiragem do material. Além disso, ele é feito com uma liga de alumínio com alto teor de magnésio, substância que aumenta a oxidação no processo de derretimento do metal, reduzindo o rendimento da reciclagem. Um bom uso dos lacres, quando separados da latinha, é o que Francisca Domingos de Oliveira, de Sorocaba, faz. Ela viu sua vizinha aproveitando-os em trabalhos de crochê. Pediu uma amostra e explorou segredos desta arte. Passou a criar bolsas, vestidos, chapéus e até vasos, assim como sua vizinha fazia. O trabalho de Francisca chamou atenção no Núcleo de Terapia Ocupacional da Universidade de Sorocaba (Uniso), que a convidou para dar um curso sobre esta técnica, em março. Foi a primeira experiência didática da artesã. São os vizinhos, filhos e amigos que lhe trazem os anéis das latinhas, para que ela desenvolva este trabalho. Em Brasília, mulheres da Cia do Lacre, cooperativa que se dedica ao mesmo tipo de artesanato, compra os lacres por R$ 5,00 o quilo (cerca de 3.400 anéis). Para fazer uma bolsa, podem ser necessários 400 lacres, informam. Quando Patricia Mousinho recebe uma consulta de alguém que não sabe o que fazer com os lacres de latinha acumulados, ela recomenda: a melhor saída é doar para artesãs, como Francisca ou as mulheres da Cia do Lacre. Mas ela reconhece: pela estatística da Abal, foram 8,2 milhões de latinhas recicladas em 2003. Ou seja: não adiantaria todo mundo separar os lacres, pois haveria mais lacres disponíveis, de que a demanda dos artesãos para este uso. MITO DO ISOPOR: ELE É RECICLÁVEL?Outro mito da reciclagem, alimentado por informações de muitas cartilhas que orientam sobre coleta seletiva, é que isopor não seria reciclável. Trata-se de uma meia verdade. Por um lado, já há processos industriais que permitem reutilizar isopor como matéria prima na fabricação de outros produtos, ou até transformá-lo, de novo, em poliestireno, matéria prima de diferentes produtos, inclusive o próprio isopor. Mas quase nunca é viável a coleta e encaminhamento deste material para reciclagem. Por exemplo, o programa AIPA-Recicla, desenvolvido pela AIPA (Associação Ituana de Proteção Ambiental), em Itu e Salto, não tem conseguido viabilizar este encaminhamento. A questão é que, além do isopor ter baixo valor, sua densidade e peso são baixos. Para dar uma idéia disto, basta lembrar que um caminhão tanque lotado com este material estará transportando só cerca de 190 kg de isopor. Para a reciclagem, é preciso juntar toneladas de isopor, quer dizer, ter enormes espaços nos depósitos para acumulá-lo e muitas viagens para transportá-lo. Some-se a isto, a desvantagem ambiental do longo tempo de decomposição na natureza e entenderemos por que isopor é tido como um vilão da reciclagem. PARA ENTENDER: HISTÓRIA DO ISOPORO que conhecemos como isopor, é tecnicamente chamado de EPS, ou poliestireno expandido, material criado nos laboratórios da Basf da Alemanha, em 1949. Naquele tempo, não havia preocupação quanto ao destino final do produto. Barato, leve, moldável, isolante térmico e resistente às intempéries, ele foi adotado, no mundo todo, por exemplo para embalar produtos industrializados. Por várias décadas, ninguém se importava com o fato dele logo virar lixo, lavando mais de 150 anos sem se degradar. A natureza parecia infindável, capaz de absorvê-lo. Ainda em 2003, informa a Associação Brasileira de Poliestireno Expandido (Abrapex), a produção mundial de EPS foi de 2,95 milhões de toneladas. No Brasil foram 42 mil toneladas (cerca de 18 mil destinadas a embalagens), além de uma quantia não estimada que chega ao país, embalando produtos importados. Um processo para fazer o EPS voltar à condição original de poliestireno tem só 8 anos e foi criado por uma indústria do interior paulista - a Valki, de Louveira. Valdemar Didone, proprietário da empresa, historia. A Fiat, diz ele, gerava toneladas de lixo-isopor, proveniente de embalagens, por exemplo de autopeças.
Didone aceitou o desafio de inventar o equipamento para reciclá-lo dentro da montadora de automóveis, em Betim/MG, num espaço apelidado "ilha ecológica". O primeiro passo, ensina, é o mais simples: um processo de trituração e aglomeração, pelo qual o EPS passa a ocupar um volume 50 vezes menor. Depois, há o derretimento numa extrusora e a homogeneização. Resfriado e picotado, o material volta a ser poliestireno, matéria prima para fabricar desde saltos de sapato até carcaças de TV. Hoje, quem opera a reciclagem de isopor na Fiat é a Bemplast. Enquanto isso, a Valki atende indústrias de todo país, sempre com proposta de reciclagem de plásticos, inclusive EPS, quando viável. O próprio inventor deste processo avisa que, apesar do processo de reciclagem do isopor existir, em geral não é viável. Segundo ele, seria preciso juntar pelo menos 10 toneladas mensais de EPS, para permitir o investimento na primeira fase de reciclagem, isto é, a compra e uso do equipamento para aglutiná-lo. Custando cerca de R$ 20 mil, ele reduz em 50 vezes o volume, viabilizando o transporte para indústrias, como a Valki, para reciclá-lo. Didone opina que indústrias e prefeituras deveriam ser obrigadas por lei a receberem de volta este material, após o uso pelos consumidores. Só assim, a reciclagem do EPS "sairia do papel". Mas hoje, diz ele, parece que tudo trabalha contra. Só de taxas e impostos, os recicladores gastam 40%. E não há obrigatoriedade legal da indústria de reciclar, ou do consumidor de devolver embalagens em postos de coleta. Sem volume, o processo não se concretiza.
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| DICA SEPARAR OU NÃO SEPARAR POR TIPO?
"Nos bastidores da reciclagem, existe uma divergência sobre como orientar a coleta seletiva na fonte, isto é, a casa das pessoas, condomínios, empresas, escolas. A sugestão da AIPA, é que, sempre que possível, a separação já seja por família de material (metais / plásticos / papéis / vidros). Marcelo Mattiuci, coordenador de Educação Ambiental da AIPA - onde o AIPA-Recicla está inserido -, explica: quando o consumidor faz esta pré-separação, o trabalho dos catadores e cooperativas rende mais, e eles ganham um tempo precioso para coletarem ainda mais recicláveis. É claro que, depois, quem cata fará a separação mais fina, por exemplo apartando os plásticos por tipo de resina (como polietileno e poliestireno), e os vidros pela cor. Pois cada tipo de material tem métodos específicos de reciclagem. Não é à toa, diz ele, que existe a identificação, por cores, para cada família de materiais. Azul, papéis, papelões e similares. Vermelho, para plásticos. Amarelo, para metais, como alumínio e aço. E verde, para vidros. Mas há instituições - como a Comarei em Itu, e várias centrais de reciclagem vinculadas a outras prefeituras - que defendem uma separação mais simples nas casas das pessoas, apenas entre lixo úmido (restos de comida, por exemplo), e lixo seco (os recicláveis). O argumento é que isto é mais fácil para os cidadãos e que, quando chegam à cooperativa ou usina de reciclagem, esta separação será feita, em todo caso.
Concordando com a AIPA, Patrícia Blauth, da Consultoria Menos Lixo - Projetos de Educação em Resíduos Sólidos, também prefere incentivar a separação por tipo de material pelos consumidores. Ela explica que, muitas vezes, a mera divisão entre lixo seco e úmido induz a confusões. Tem quem inclua no lixo seco materiais inaproveitáveis, como cestos comidos por brocas, e o índice de rejeitos nas cooperativas fica bem maior. Ela também concorda que a coleta seletiva deve ter como base os três R: reduzir o consumo, reutilizar o que for possível e reciclar em última instância. Um exemplo de reuso: por que não aproveitar o lado não utilizado de uma folha de papel, para rascunho, antes de encaminhar para reciclagem? Outro ponto, é estimular pequenos atos que facilitam o trabalho dos catadores e cooperativas, além da separação por família de material. A pré-lavagem de plásticos é um bom exemplo. "A limpeza é obrigatória, antes da reciclagem. E é muito menos trabalhoso passar uma água num saquinho de leite, logo que ele é esvaziado, de que ter de fazer isso quando ele chega à cooperativa, embolorado", exemplifica Mattiuci. Também concordando com a importância de separar materiais por família, em programas de condomínios, empresas, ou escolas, Patrícia Mousinho, da Recicloteca, avisa que, quando não há um trabalho prévio de prospecção e escolha de quem receberá os materiais (cooperativa catadores, etc), muitas iniciativas de coleta seletiva se esvaziam rapidamente. (veja nesta página, mais sobre o AIPA-Recicla)
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